A importância do Livre Exame das Escrituras
Definição de Termos
Certamente a Reforma Protestante foi um dos eventos religiosos da história que alterou a cosmovisão de diversas áreas comuns do ocidente. As duas doutrinas principais que nos separaram do romanismo sem sombra de dúvidas foram a [1] a justificação pela fé, e [2] o sacerdócio universal dos cristãos. Esta última, nos tira de debaixo da “pseudo” autoridade de um bispado universal que fala em ex cathedra , acerca dos artigos de fé e prática, permitindo a nós mesmos ir até ao Pai por meio de Cristo, que é o nosso sumo sacerdote eterno (Hb. 4.14-16). Dentro dessa doutrina podemos entender que os cristãos, com o auxílio do Espírito Santo, podem examinar livremente as escrituras, não dependendo de um veredicto romano para compreensão delas (2 Tm. 3.16-17).
É comum ainda hoje ver a apologia católica romana a todo custo dizendo a sua fidelidade que precisa seguir à risco a interpretação que o seu magistério católico tem acerca de determinada questão da Bíblia. Exortam a sua fidelidade a não praticarem o Livre Exame das Escrituras . Podemos iniciar a reflexão sobre o tema como o que Jesus Cristo disse: “Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê , entenda ” (Mt. 24.15) [grifo meu]. No seu ensinamento aos discípulos sobre os tempos do fim, ele traz à tona a profecia de Daniel (Dn. 9.27; 12.11), porém o que ele enfatiza no final é “quem lê, entenda”. Essa fala de Jesus é importante para a análise do tema proposto, pois na simples leitura do texto sem exercícios exegéticos e hermenêuticos, entende-se que Jesus está afirmando a capacidade que qualquer um critério de entender que esta profecia associada ao tempo do fim, aconteceria quando se visse a profanação do templo.
Não quero aqui menosprezar o auxílio de léxicos, dicionários, o estudo acadêmico das escrituras ou a ajuda de irmãos teólogos capacitados nas línguas originais para auxiliar-nos na compreensão do texto bíblico, mas quero dizer que o Livre Exame das Escrituras é possível a qualquer um que queira. O mesmo Jesus que disse “quem lê, entenda”, é o mesmo que disse: “ Examinais as Escrituras , porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim” (Jo. 5.39) [grifo meu]. O exame das escrituras nunca foi o motivo do debate com os fariseus, mas que as escrituras testificavam dele, ou seja, o messias prometido. É possível observar no Antigo Testamento quando Neemias reúne o povo na praça.
“E leu nela diante da praça que está fronteira à porta das águas, desde a alva até o meio-dia, na presença dos homens e das mulheres, e dos que puderam entender ; e os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao livro da lei” (Ne. 8.3) [grifo meu].
Há
a clara menção de que os homens e mulheres presentes na praça tinham o poder de
entendimento do livro da lei judaica (Torah), sem terem que pedir permissão
para alguém ou recorrerem a uma elite com algum poder especial ou que
detivessem alguma autoridade especial interpretativa acerca das escrituras do
seu tempo.
Esse
é um importante legado deixado por Jesus que foi resgatado pelos reformadores,
onde entendiam que as pessoas não necessitavam do clero para a leitura das
escrituras e interpretação das mesmas. Por isso, muitos pré-reformadores e
reformadores, esforçaram-se para trazer as escrituras no vernáculo comum das
suas cidades para que todos tivessem acesso, sendo que, no idioma latim falado
somente entre o clero e usado na celebração das missas, não seria possível.
Com
essa breve exposição pode-se entender que Livre Exame é, em termos simples, o
princípio de que todo cristão pode (e deve) ler, investigar e interpretar a
Bíblia, usando os meios ordinários (línguas vernáculas, razão, métodos
exegéticos, oração) — sem depender de alguém considerado infalível (ex
cathedra) para dizer, de modo final, o que o texto significa. Importante
ressaltar: Livre Exame não é “vale-tudo hermenêutico”. Nas tradições reformadas
e evangélicas clássicas, ele é exercido sob regras (contexto, gramática,
história, analogia da fé), em comunidade (igreja, professores, confissões) e
sob o Espírito Santo.
Olhando
para as sementes na história
A
exemplo dos bereanos, quando o apóstolo Paulo ministrava a palavra na sinagoga
da cidade, esses judeus receberam a mensagem do evangelho e conferiam nas
escrituras se havia conformidade com o que ele pregava (At. 17.11). Percebe-se
nessa passagem bíblica, que a recepção por parte dos bereanos judeus acerca da
mensagem do evangelho se deu pelo exame, onde se conferiu nas escrituras a
veracidade da mensagem, diferente dos judeus da cidade de Tessalônica (v. 5). O
acesso as escrituras foi o diferencial entre os judeus das cidades de
Tessalônica e Bereia, para receberem de bom grado a mensagem da redenção.
A
necessidade de acesso as escrituras ao longo da história, percebeu-se
principalmente com a dominação do romanismo após o cisma de 1054, que somente o
clero romano tinha acesso a elas. Bem verdade de se dizer, que nem todos eram
alfabetizados, não falavam latim e as bíblias que eram escritas a mão, custavam
muito caro. Mas, mesmo assim, homens como Pedro Valdo considerado um
pré-reformador, teve a iniciativa de prover para o povo de sua cidade a
tradução de livros sagrados para o franco-provençal.
Pedro
Valdo era um cidadão da região da galaica de Lyon, que era um importante local
de comércio na divisa de Borgonha e o reino franco, submetido ao domínio feudal
de seus bispos. Havia adquirido considerável riqueza pela prática da usura e
ser um representante da burguesia mercantil (PAGANELLI, 2023, p. 54). Após colocar suas filhas
no convento de Fontevrault, uma fraternidade fundada em 1103, ele passa
a adotar uma vida simples, socorrer os pobres e conclama a outros a seguir seu
exemplo. Porém, o maior problema gerado ao romanismo foi a decisão de Valdo já
citada acima, de traduzir textos sagrados para o provençal. Paganelli sobre
isso nos diz:
“Traduzir
e distribuir os textos sagrados foi um gesto que veio na contramão das novas
práticas da Igreja e de um papado infalível, defendido pela Igreja Romana, que
não permitia o acesso o povo às Escrituras. E mesmo se o permitisse, a maioria
esmagadora era analfabeta. Valdo desagradou o clero lionês quando mandou
traduzir para o provençal, livros das escrituras e passou a pregar
(prerrogativa da Igreja), fazendo seguidores” (PAGANELLI, 2023, p. 58)
O
trabalho de Pedro Valdo foi concluído, mas ainda preocupado para que o povo
pudesse ter acesso as escrituras em seu idioma comum, mesmo com o grande índice
de analfabetos, ele teve o apoio nesse trabalho de acadêmicos peritos em
escritos sacros da sua época para esse feito. [1] Bernardo de Ydros que ganhou
estima entre os dominicanos, [2] Stephen de Ansa gramático e linguista, e [3]
John de Lugio biblista de elevada reputação, Paganelli comenta que:
“Cada
um dos três cuidou de um aspecto durante a produção da nova versão das
escrituras, como correção e inspeção, e o preparo do material para que os
copistas multiplicassem as cópias em circulação” (PAGANELLI, 2023, p. 58)
Além
desse meritório trabalho, Valdo preocupado para que os leitores de sua versão
das Escrituras pudessem entendê-la, recorreu a diversos textos dos pais da
igreja como Ambrósio, Agostinho, Gregório e Jerônimo. A finalidade dessa ação
era complementar a sua edição das Escrituras e “serviram como comentários para
que os leitores pudessem aprofundar o entendimento do texto traduzido”
(PAGANELLI, 2023, p. 59). O trabalho de Valdo surtiu efeito, e de fato houve um
movimento pré-reforma em Lyon onde camponeses passaram a ter acesso a pelo
menos parte das Escrituras, sobre isso Paganelli traz uma importante citação de
um inquisidor da época:
“Narra
um inquisidor haver visto um camponês que sabia vinte capítulos do Evangelho,
por ter vivido um ano e com uma família de valdense, e vários leigos que
recitavam de memória quase todos os Evangelhos de Mateus e de Lucas, sobretudo
as palavras dos discursos de Nosso Senhor. Por isso mereciam os valdenses o
apelido de povo da Bíblia” (PAGANELLI, 2023, p. 59)
Fiz
uma rápida e resumida história de Pedro Valdo que serviu para demonstrar que o
conceito de Livre Exame das Escrituras, estava na incubadora histórica desse
pré-reformador, que mesmo contra a vontade do clero romano de sua época deixou
um legado importante sobre esse tema, tornando a Escritura acessível a todos
quantos quisessem.
Outro
nome importante desse período pré-reforma é John Wycliffe (1300 – 1384).
Citá-lo dentro do tema sobre o Livre Exame das Escrituras também é relevante
pela história que esse homem de Deus deixou como legado histórico. Wycliffe tem
em seus escritos a fundamentação da doutrina da justificação pela fé que
antecedia Lutero. Mas a notoriedade dele se dá em 1378 quando um papa romano
excomunga outro papa em Avignon, onde ele entende a necessidade da igreja
passar por uma reforma.
O
conceito de Livre Exame das Escrituras na vida de Wycliffe e percebido quando
ele vai além da compreensão romana que negava o acesso do povo a Bíblia
Sagrada. Sobre isso Bruce L. Shelley nos diz acerca do pensamento de Wycliffe:
“[...] todo homem tem o direito de estudar a bíblia por si só: ‘O Novo
Testamento tem plena autoridade e está aberto ao entendimento dos homens
simples nos pontos mais necessários à salvação’ [...]” (SHELLEY, 2023, p. 251).
Após
uma derrota em Oxford sobre a transubstanciação, onde seus 12 artigos foram
questionados e silenciados, Wycliffe se volta totalmente para o povo do campo e
da cidade, e isso necessitaria que a Bíblia estivesse na linguagem dos
camponeses e artesãos. Então com a ajuda de estudiosos de Oxford, a Bíblia
Latina (VULGATA) foi traduzida para o inglês “seguindo os métodos de São
Francisco e dos frades” (SHELLEY, 2023, p. 253).
Para
finalizar, não poderia deixar de citar o próprio Lutero. A reforma de fato tem
seu início com esse reformador alemão que ficou conhecido pelas suas 95 teses
contra a igreja romana pregada nas portas da igreja de Whitenberg. Lutero
defendia o Livre Exame das Escrituras e que todo o homem deveria ter acesso a
ela. R. C. Sproul nos lembra que no século 16, “foi Lutero quem trouxe as
questões da interpretação particular para o centro das discussões teológicas”
(SPROUL, 2018, p. 36).
Como
Lutero tinha esse entendimento acerca das Escrituras, que todo homem deveria
ter acesso a elas, ou seja, o Livre Exame, também ele ficou conhecido por
defender o princípio reformado do Sola Scriptura. Talvez, umas menções
mais claras sobre isso estão no seu artigo “Uma afirmação de todos os
artigos” (1520), quando estava sob ameaças do papa Leão X, escreveu: “Não
quero jogar fora todos aqueles que são mais instruídos [do que eu sou], mas
somente a Escritura deve reinar [...]” (THOMPSON, 2017, p. 136). Além disso
outra das grandes contribuições de Lutero foi a tradução da Bíblia para o
alemão em 1534, tornando-a acessível as pessoas comuns.
Conclusão
A
proposta até aqui foi trazer uma breve reflexão tanto das Escrituras e também
da história acerca da relevância do Livre Exame das Escrituras. Princípio esse
que foi resgatado a muito custo pelos reformadores que havia se perdido na
história pela dominação romana na igreja. Embora ressalto a importância do
estudo acadêmico para uma excelente interpretação das Escrituras, reforço
novamente que qualquer um pode e deve examinar as Escrituras para uma busca do
conhecimento de Cristo (Jo. 5.39). Pois somente nas Escrituras teremos o pleno
conhecimento da revelação de Deus e o seu plano redentivo para a humanidade
caída.
Bibliografia
Barret, M.
(2017). Teologia da Reforma. Rio de Janeiro: Thomas Nelson.
Paganelli, M. (2023). Os Valdenses: a história dos
protestantes que antecederam a reforma. Santo André: Geográfica.
Shelley, B. L. (2023). História do Cristianismo: Uma
obra completa e atualsobre a trajetória da igreja cristã desde as origens até
o século XXI. Rio de Janeiro: Thomas Nelson.
Sproul, R. C. (2018). O conhecimento das Escrituras:
Passos para um estudo b´bilico sério e eficaz. São Paulo: Cultura Cristã.
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